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1.10. Cura e despedidas

Não houve luz visível. Houve calor certo — vivo, limpo, contido. Algo antigo se acendeu por dentro; um fluxo desceu da mão para a gaze, da gaze para a pele. A dor perdeu o nó; o sangue obedeceu; o tecido se alinhou.
 

— Pronto — disse Lorafa, ainda sem tirar a mão. Depois ergueu os dedos devagar, como quem retira um selo.
 

Silêncio rápido. Ela afastou a gaze: só um rosado tímido. Sem corte. Sem sangramento. Sem dor.
 

Seli levou a mão à boca; a lágrima veio limpa.
 

— Meu Deus… — não foi religião; foi mãe.
 

Nira dobrou o joelho uma vez, outra; nada doeu.
 

— Não dói mais.
 

— Era para não doer mesmo — Lorafa sorriu de canto.
 

— Obrigada — disse Seli, tocando o rosto da amiga.
 

— Ela só precisava disso — disse Lorafa, guardando o estojo. — E de um pouco de ordem.
 

— Quer tentar andar? — perguntou a Nira.
 

A menina ficou de pé, deu três passos — firmes, quase dançados — e riu baixo, surpresa.

 

— Aprovado — decretou com solenidade de oito anos.
 

A tarde dobrou pela cortina. A casa aceitou o milagre como quem aceita um copo d’água sobre a mesa: sem alarde, para nunca esquecer.
 

Quando o entardecer tocou as quinas, Ilael e Seli decidiram partir. Nira abraçou Lorafa; Wylaru retribuiu o coração feito com os dedos da menina. Desceram até a calçada.
 

Tudo normal: um senhor brigando com a tranca do portão; duas bicicletas passando em conversa baixa; um carro manobrando para estacionar.

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