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1.8. O retorno do parque

O parque devolveu reflexos quebrados pelas poças enquanto eles retornavam.
 

— Confortável? — ele perguntou.
 

— Uhum. O mundo fica mais calmo visto daqui de cima.
 

— Às vezes, fica mesmo.
 

Tomaram a alameda lateral. Gotas atrasadas estouravam no chão; um par de pombos abriu passagem sem alarde. Na ponte, o som do chafariz virou murmúrio que acompanhou os passos. Nira observava tudo de cima: bancos marcados de umidade, cascalho acumulado no rodapé do caminho, fios de luz atravessando as copas. Conferiu o curativo; um rosado manchava o tecido. Olhou o perfil de Wylaru — queixo tranquilo, olhos atentos a cada desnível.
 

— Desculpa ter corrido daquele jeito… — ela disse, meio culpada.
 

— Tudo bem. As duas eram grandes.
 

— “As duas”… quem?
 

— O parque e a pressa — ele respondeu, quase sorrindo.
 

Eles saíram pelo portão de ferro, gotas presas na pintura. A rua estreita recebeu os dois com asfalto em brilho baixo. Na primeira esquina, Wylaru reduziu e parou. Esquerda, direita, esquerda… esperou. Não um carro; o som. Quando a rua “caiu” um tom, atravessaram. Nira testou o apoio nos ombros dele; Wylaru ajustou com um toque nos tornozelos dela. Tudo preciso, simples.
 

O bairro tinha cheiro de rua lavada e terra recém‑virada. De um quintal veio café requentado; de outro, um cachorro ergueu a cabeça e desistiu do latido. Um varal gotejava sob o beiral. Os dois passaram, respirações afinadas.
 

A varanda da casa derramava luz suave sobre a entrada. O portão vizinho guardava folhas coladas pela ventania da noite; a sarjeta conduzia uma lâmina d’água fina.
 

— Chegamos — disse Wylaru, sem dramatizar.
 

— Ufa — Nira sorriu, meio orgulhosa. — Estou mais leve agora.
 

— Eu sei.
 

Ele se inclinou com cuidado. As mãos deslizaram das pernas da menina aos flancos, depois à cintura. Em um único movimento, a devolveu ao chão: patins na faixa seca da pedra, pouso limpo.
 

— Melhorou?
 

— Melhorou. Dói, mas… dá para contar vantagem depois.
 

— A gente conta junto.
 

Wylaru tocou a campainha duas vezes — toque duplo, breve. As vozes dentro diminuíram; a fechadura girou.

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