Wylaru Wolsin e os Segredos Revelados
1.7. O acidente
A rua estreita levou os dois ao Santorini. Do outro lado da ponte, o chafariz subia e descia com precisão; a água virava névoa antes de tocar o piso claro. A grama ainda devolvia cheiro de chuva; pássaros caminhavam pelo chão em passos miúdos.
— É bonito — disse Nira, os olhos brilhando.
— É — respondeu Wylaru. — Por aqui há um chafariz diferente. Costuma juntar muitos pássaros. Quer ver?
— Quero! Fica naquela direção?
— Fica.
— Então venha! Eu vou na frente! — Nira disparou. Os patins deslizaram leves, como se o caminho ajudasse.
Quando o chafariz surgiu, o piso pareceu ganhar asas: pássaros levantaram voo, riscando o ar. Nira correu entre eles, rindo alto, e o gramado inclinou‑se como convite. Ela se jogou na relva, braços abertos, olhos fechados por um segundo de céu.
Wylaru chegou logo depois, ofegante. Sentou‑se ao lado dela.
— Isso foi muito divertido. Quero de novo! — disse Nira.
— Fica aí um instante — brincou ele. — Deixa eu respirar antes que você acabe comigo.
A brisa passou pelas copas; a poça mais próxima devolveu um retalho de luz.
— Onde foi parar a garotinha tímida que mal saía de casa? — ele provocou.
— Agora ela corre — disse Nira, firme. — E, se você não ficar esperto, vai me ver do outro lado do parque!
Ela arrancou num impulso. Patins rápidos, risos leves, uma careta por cima do ombro… e o mundo virou. Uma raiz prendeu o pé; o joelho raspou na calçada. Vermelho imediato.
Wylaru correu. Dois, três passos; ajoelhou ao lado dela. Soprou o pó, rasgou o forro interno da camiseta, limpou, amarrou a tira com nó simples.
— Obrigada — Nira disse, ainda ofegante.
— Eu avisei sobre as surpresas. Assim está firme.
Ela tentou andar; a perna pesou.
— Acho que doeu mais do que pensei.
— Sobe — ele disse, já se inclinando.
— Eu peso…
— Menos do que você imagina.
Nira assentou nos ombros dele. As mãos de Wylaru seguraram as pernas com segurança; ela entrelaçou os braços no pescoço dele, leve.

