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1.5. As visitas: Ilael, Seli e Nira

A rua da casa ainda carregava marcas da chuva: folhas grudadas no portão, uma lâmina d’água seguindo pela sarjeta, o brilho úmido no asfalto.

Helon entrou.
 

Lorafa dobrava guardanapos na mesa. Bastou olhar para o rosto dele para entender que algo havia mudado.
 

Helon…?
 

— Precisamos conversar.
 

— O que houve?
 

— O Livro de Magia Arcana foi roubado.
 

Ela não demonstrou espanto.
 

— Como você soube?
 

— No parque. Ilael ligou. Eles vão vir aqui.
 

Lorafa absorveu tudo em segundos.
 

— E quem está vindo?
 

Ilael Seli e a Nira. Às quatorze.
 

— Eles vão chegar antes.
 

— Eu sei.
 

— Quer tomar um banho antes?
 

— Quero. Depois conversamos juntos.
 

O vapor do banho subiu pelo corredor. A água não trouxe descanso, mas ordem. A mente de Helon organizava ideias como quem rearruma um tabuleiro antigo.
 

Quando desceu, a casa já tinha aquela tensão silenciosa de quem espera visitas importantes.
 

— Eles chegam em vinte minutos — avisou Lorafa, ajeitando uma jarra de suco.
 

Helon assentiu.
 

Às quatorze em ponto, a campainha tocou.
 

A luz da tarde atravessava a varanda com umidade leve.
 

Helon abriu a porta.
 

Ilael — sério, mais marcado.
 

Seli — calma, como sempre.
 

Nira — olhos grandes, atentos demais para a idade.
 

— Amor! Wylaru! Eles chegaram!
 

Wylaru desceu com passos leves.
 

Lorafa veio logo atrás, sorrindo como quem revela memórias antigas.
 

— Entrem — disse Helon.
 

Seli abraçou Lorafa com carinho silencioso.
 

O gesto dizia: “Estamos juntas.”
 

Helon e Ilael se cumprimentaram com um abraço forte, quase ritual, como quem recolhe um laço nunca quebrado.
 

Riram, trocaram frases rápidas, lembraram coisas antigas.
 

Mas havia algo abaixo dessa superfície — algo que todos sentiam, ninguém dizia, e a casa parecia escutar.
 

Helon chamou o filho com voz tranquila, mas com urgência escondida.
 

— Filho, leve a Nira para conhecer o Parque Santorini.
 

Wylaru olhou para Nira com serenidade.
 

— Quer conhecer o parque?
 

Ela hesitou, recuou um passo.
 

Os olhos buscaram os pais.
 

Seli se aproximou.
 

— Tudo bem, minha florzinha. Ele é filho de Helon. Você pode ir.
Se quiser, leve seus patins.

 

O sorriso surgiu nos olhos de Nira.
 

— Então eu vou!
 

Ela correu para pegar os patins. As mãos trêmulas revelavam ansiedade e algo que ela não sabia nomear. Ao levantar, tropeçou.
 

Antes que caísse, uma mão firme sustentou suas costas — Wylaru.
 

— Obrigada!
 

— Imagina — disse ele, calmo. — Vamos. E cuidado… se algo acontecer, eu tô aqui.
 

— Divirtam‑se, filha — disse Seli, ajeitando uma mecha do rosto de Nira.
 

Lorafa acompanhou com atenção além da simples proteção.
— Cuide bem dela, filho.

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