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1.3. Parque Santorini

Na mesma hora, o Parque Santorini guardava marcas de chuva nas folhas e uma névoa curta sobre o piso claro. Helon entrou, puxou ar frio, ajeitou o relógio e começou a correr. As primeiras voltas aqueceram o corpo; a cabeça ficou limpa o suficiente para caber o dia.
 

Ele parou, bebeu água, sentou‑se num banco ainda úmido. O parque era um mapa vivo: crianças perguntando sem esperar, idosos contando passos como quem negocia tempo, pássaros riscando o gramado com precisão distraída.
 

— Bom dia, rapaz. Tempo ótimo para alongar — comentou um senhor.
 

— Sempre é — disse Helon, devolvendo o aceno.
 

As vozes chegaram de lado, fora do ritmo do chafariz. Perto da água, Liora gesticulava; Dorian respondia alto demais.
 

— Eu já falei que não gosto quando você decide por mim!
 

— E você nunca aceita nada do que eu faço!
 

Passantes reduziram o passo. Uma mãe puxou o filho pela mão. Helon levantou‑se sem pressa; havia decisão, não urgência. Caminhou, o cascalho sussurrando sob as solas, e pousou a mão no ombro de Dorian — leve, mas presente.
 

— Desculpem. Ouvi sem querer. Quando dois que se gostam se machucam, às vezes só falta respirar.
 

Dorian travou; Liora desviou o olhar.
 

— Tentem de novo — disse Helon, manso. — Mas para entender, não para vencer.
 

O parque pareceu ajustar o volume. Dorian inspirou como quem encontra um lugar onde colocar o peso.
 

— Desculpa, Liora. Eu deveria ter conversado primeiro.
 

Ela assentiu. — Eu também exagerei. A gente conversa… sem gritar.
— Empatia e paciência —
Helon resumiu. — Às vezes, é isso.
 

Ele recuou um passo, viu os dois se abraçarem e voltou ao seu caminho.
 

— Ele sumiu… — Liora percebeu o banco vazio.
 

— Quem era? — perguntou Dorian, apertando as mãos dela.
 

— Alguém na hora certa.
 

O parque respirou. Bexigas vermelhas subiram e desceram na mão de um vendedor; o cachorro recomeçou a disputar a guia; a água do chafariz voltou ao seu tom habitual. Invisível a quem passava, uma linha tênue de ordem ficou no ar.
 

Em casa, a manhã seguiu com o barulho bom de talher contra prato e porta de armário que encontra o próprio eixo. A cada objeto no lugar, a casa parecia sossegar um pouco mais — como se reconhecesse a família que retornava a ela.
 

E, no meio dessa simplicidade, a vida se alinhou o suficiente para o dia continuar. Com pão, risos pequenos, vento pela janela e a certeza discreta de que, naquela casa, estavam de volta ao seu lar.
 

Helon caminhava de volta em ritmo leve. O corpo ainda quente da corrida contrastava com o ar frio da manhã, que tocava seu rosto como aviso discreto de que o dia guardava algo adiante.

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