Wylaru Wolsin e os Segredos Revelados
1.2. A primeira manhã
O amanhecer chegou em linhas douradas pelas cortinas. A rua parecia lavada. Um cachorro se espreguiçou no quintal; passos firmes seguiram para a padaria; um motor insistiu em pegar. Wylaru acordou com o sol no rosto, espreguiçou‑se com exagero e desceu correndo.
— Bom dia!
— Bom dia, meu amor — disse Lorafa, abrindo os braços.
Helon já amarrava o tênis. — Parque depois do café?
— Hoje não. Ainda está frio. Outro dia eu vou.
— Certo — ele assentiu.
A mesa tinha pão tostado, café, fruta lavada. Conversaram pouco, no conforto de quem não precisa preencher o ar.
— Sonhei com um corredor de luzes piscando — disse Wylaru.
— Sonho ou lembrança da estrada? — perguntou Lorafa.
— Talvez os dois. Mas foi bom.
— Então guarda. Sonhos bons aquecem dias frios.
Na saída, Helon se inclinou no batente.
— Eu te amo — disse Lorafa, baixo.
— E eu te amo — ele devolveu, encostando a testa na dela. O abraço foi inteiro; depois, só a rua úmida.
Poft! Um travesseiro acertou as costas de Lorafa.
— Guerra de travesseiro! — Wylaru disparou escada acima.
— Agora você vai ver! — ela riu, subindo atrás.
Minutos depois, desceram ainda sorrindo.
— As caixas da cozinha primeiro? — sugeriu Lorafa.
— Fechado — disse ele, já com o estilete.
Trabalharam lado a lado. Pratos testaram prateleiras; copos mudaram de posição duas vezes.
— Esse fica melhor perto do filtro — Wylaru apontou.
— Concordo — ela respondeu, cúmplice.
— Você tem boa mão para a casa.
— A casa tem boa mão para a gente — ele disse, meio tímido. O sorriso de mãe encerrou a conversa.

