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1.1 - A viagem e a chegada

A estação das flores chegara a Ralbis com cheiro de terra molhada e ar renovado. A chuva riscou o vidro; o vento dobrou as copas e fez o carro vibrar de leve. O relâmpago piscou no console e sumiu.


— Três… quatro… — Wylaru contou, os olhos no clarão.
 

— Ainda contando? — perguntou Lorafa, pelo retrovisor.
 

Ele assentiu, com um meio‑sorriso de quem entende o idioma do céu.
 

A rodovia parecia alongar o silêncio entre um farol e outro. O mundo lá fora era água e vulto; por dentro, música baixa, risos curtos e aquela paz de quem está junto no lugar certo. Helon manteve o carro firme, ajustando o volante milímetro a milímetro quando as rajadas testavam a lataria.
 

— Quase chegando — avisou, sem tirar os olhos da pista.
 

As primeiras luzes de Inorland, ao sul de Ralbis, surgiram filtradas pela chuva. O som da cidade atravessou o vidro: um ônibus dobrando, um portão rangendo, passos apressados cortando poças.
 

— Cheiro de pão… — Wylaru inclinou o nariz.
 

— A padaria ficou na curva — disse Lorafa, rindo. — E você já está com fome.
 

Helon sorriu. — Janela, só um palmo.
 

O ar úmido entrou, trouxe o forno para dentro e saiu.
 

A casa dos Wolsin ficava numa área tranquila de Inorland, onde as ruas ganhavam vista ampla e os ventos chegavam primeiro. A varanda derramava luz sobre a entrada; no jardim, duas mudas novas resistiam com valentia discreta.
 

A porta abriu com um clique, liberando madeira limpa e tinta recente. Caixas esperavam no corredor como promessas por montar. Wylaru passou a mão pela parede, sentindo a textura.
 

— Tem algo familiar aqui… — murmurou.
 

Lorafa se aproximou, com um sorriso contido. — Faz sentido. É a mesma casa onde você nasceu.
 

Ela pousou a mão no ombro dele, leve. — Estamos de volta ao nosso lar.
 

Helon percorreu cômodos, testou fechaduras, conferiu torneiras, trocou uma lâmpada. Era o jeito dele de dizer “estamos seguros”. Lorafa abriu janelas; o cheiro de rua molhada e um traço de eucalipto fizeram a sala respirar.
 

Naquela primeira noite, abriram o essencial.
— Essa etiqueta está ao contrário — disse
Lorafa, cutucando uma caixa da “COZINHA”.
 

— Não está — retrucou Helon, fingindo seriedade.
 

Wylaru virou a caixa com cuidado. — Agora está.
 

Helon suspirou teatralmente. — Dois contra um. Nunca ganho.
 

Quando deitaram, a chuva ainda marcava o telhado. Por dentro, riso e silêncio se acertaram como móveis no lugar.

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